<i>Guarimbas</i>… para inglês ver
As guarimbas estão derrotadas porque não têm povo que as anime. Não são a Comuna de Paris. Mas fizeram destroços terríveis. Nesta fase final, o seu balanço é negativo para todos, até para as forças da oposição, de uma oposição que tem vários matizes mas onde os moderados têm pânico de se demarcarem dos sectores porque serão automaticamente etiquetados de traidores ou de chavistas.
Não é uma jornada de guarimbas , é um golpe de estado contínuo decidido pelo círculo de poder dos Estados Unidos, articulado com a cúpula empresarial de Venezuela e conduzido pela extrema direita venezuelana
O nível cultural dos que estão nas guarimbas é confrangedor. Nem sequer conhecem a história recente do seu país. O seu discurso limita-se a um anticomunismo de caverna e a um ódio vesgo a tudo o que lhes cheire a socialismo ou justiça social. Antes unia-os o ressentimento de que um mestiço fosse presidente. Agora uniformiza-os o facto de o presidente ter sido motorista de autocarro. De resto, vivem num mar de contradições onde uns vociferam contra os médicos cubanos e outros – como Henrique Capriles – num arrebatamento de demagogia doentia afirma publicamente que os cubanos podem ficar e até lhes oferece a naturalização!
Estas guarimbas, que reeditam as de 2004, estão inexoravelmente derrotadas, coisa que sabem perfeitamente os seus autores intelectuais, especialmente Robert Alonso, um cubano-venezuelano fugido da Justiça e que vive actualmente... em Miami! Onde mais poderia ser?! Este sujeito, irmão político dos terroristas Posada Carriles e Bosch é dono de uma propriedade rural próxima de Caracas, Daktari, onde em Maio de 2004 foi detectado um grupo de duzentos paramilitares colombianos cuja missão era o magnicídio de Hugo Chávez. Com a sua magnanimidade tradicional – que por vezes roçava perigosamente com a ingenuidade – devolve-os quase de imediato à Colômbia como gesto de boa fé e hoje há quem se pergunte se alguns deles não estarão entre os mercenários que ainda mantêm activas as guarimbas no estado fronteiriço de Táchira.
Ainda que derrotadas, as guarimbas cumpriram dois objectivos. Serviram fundamentalmente para que os media as magnificassem e apresentassem a imagem de um país à beira da guerra e assim se abrisse – nos seus cálculos – o caminho para uma intervenção estrangeira no país. E de passagem para provocar novo desastre económico e social. As perdas materiais calculam-se em 10 mil milhões de dólares: centros médicos queimados, uma universidade arrasada, carruagens de Metro e autocarros destruídos, dependências e viaturas oficiais vandalizadas... Centenas de feridos e mais de 30 mortos. Todos os assassinatos são cruéis. Mas algumas das mortes provocadas por estes terroristas disfarçados de estudantes e misturados com estudantes têm sido particularmente violentas. Especialmente aquelas provadas por arames colocados a 1,20 metros do chão e estrategicamente amarrados a árvores para degolarem indiscriminadamente quem se deslocasse em motorizada. A ideia partiu de um general reformado, paradoxalmente de apelido Vivas, mas cuja especialidade é sem dúvida a morte.
As guarimbas não têm nada de espontâneas. Os guarimberos estão bem articulados e comunicam através de vários mecanismos. E além disso têm contado com a colaboração activa ou passiva das autoridades autárquicas dos distritos opositores, que se demitem da sua função de garantir a ordem pública e o princípio democrático de livre circulação pelo país. Recentemente, o Tribunal Supremo de Justiça emitiu um parecer onde obrigava as autoridades locais a fazerem cumprir a lei. Dois deles acharam-se acima da lei e estão presos. Entretanto, Ramón Muchacho, com ligações ao Opus Dei e presidente de Chacao, o município mais pequeno do país mas onde se têm registado das guarimbas mais violentas, ainda que durante semanas tivesse afirmado que a ordem pública não era da sua incumbência e deixasse o terrorismo à solta, parece ter tido um ataque repentino de lucidez e decidiu actuar, ainda que parcialmente, contra a violência de vários dos seus munícipes. Como resultado desta «iluminação repentina da inteligência», a sua polícia procedeu finalmente a algumas detenções em flagrante.
Entretanto, parece avançar o processo de retirar a imunidade parlamentar à deputada Maria Corina Machado, a mesma que assinou o decreto de Carmona e nunca pagou pelo crime.
Perguntas de um jesuíta
No início de Março, o jesuíta panamiano Sarsaneda Del Cid, ao observar o que sucedia na Venezuela, fez-se uma série de perguntas [1] ao mundo cujas respostas desmascaram a face alegadamente pacífica e democrática da extrema-direita de Caracas.
Mas antes de passar às mesmas recordemos, para benefício do leitor, algo sobre este quase septuagenário cuja actividade a favor dos mais humildes do seu país é digna de registo. Falemos de uma carta (Out. 2013) enviada ao Papa a propósito de uma visita do provocador Martinelli, hoje empenhado em servir de instrumento de Washington contra o governo bolivariano. Instrumento perigoso mas torpe, diga-se de passagem.
Na missiva ao «companheiro Francisco», faz uma breve referência histórica, que é, ao mesmo tempo, uma crítica a um passado recente do papado: «ainda que outros bispos de Roma já tenham recebido militares assassinos como Pinochet, Videla e Rios Montt, penso que agora poderá ser diferente». Depois, debruça-se com valentia sobre o caso panamiano: «... tenho 67 anos e, desde que tenho memória, não vi nunca tanta corrupção como no governo actual. O seu único desvelo é o dinheiro, o lucro ao preço que for. É outra maneira de matar...». E remata fazendo clara destrinça entre o crescimento económico e justiça social: «...os dados de crescimento económico são fantásticos (quase 11% em 2012!), mas somos o segundo país da América em iniquidade. Há muito dinheiro, mas 62% das crianças indígenas estão desnutridas e 93% da população indígena vive na pobreza. Que crescimento é esse? Está-se a matar a gente em nome da economia?». Feita esta introdução, repassemos abreviadamente algumas das perguntas deste sacerdote.
1. Por que se diz que na Venezuela há uma tão grave falta de alimentos, que justifica destruição e incêndios, se foi um dos quatro países com menos fome em 2012 (menos de 5%, FAO e OMS)? Segundo a lógica dominante, por que não há maiores turbulências num país irmão como a Colômbia, onde há 12% da população com fome, ou seja quase o triplo de na Venezuela?
2. Por que observamos acções de tipo político e não assaltos a lojas e hipermercados se as causas das destruições, incêndios e manifestações são a escassez de produtos básicos? Por que é que um dos dirigentes opositores, Henrique Capriles, afirma que se deve a «falta de medicamentos» se os avanços em saúde na Venezuela estão entre os mais significativos da região?
3. Por que há tanta violência por alegada «ausência» ou falta de comida se The Economist publicava esta semana que a escassez só afectava 28% dos produtos? Por que é que os analistas não prognosticam algo parecido na República Dominicana onde o Latinobarómetro detectou que perto de 70% da população não tem dinheiro para a comida do mês?
4. Por que é que o centro dos protestos contra a «escassez» é a Praça Altamira, no coração de urbanizações abastadas e habitantes de pele branca e não como seria lógico nos bairros pobres e de população mestiça num país com a maior proporção de afrodescendentes, exceptuando o Brasil?
5. Por que é que as manifestações que observamos são de grupos de dezenas ou, quando muito, centenas de pessoas, se os estudantes de educação superior superam os 2,6 milhões (20 vezes mais do que no Panamá)?
6. Por que é que, se é habitual que estudantes e sindicatos marchem por bens e serviços públicos, e leis mais democráticas e equitativas, estes «estudantes» o fazem por papel higiénico e defendendo a propriedade privada sobre os media ou negócios de consumo?
7. Por que é que quem produz as imagens falsas de torturas, assassínios e humilhações posteriores aos acontecimentos confusos de 12 de Fevereiro o faz manipulando fotografias do Chile, Europa ou Síria para que apareçam nos media e até na CNN como se fossem da Venezuela? Que liderança democrática fez assim alguma vez na história universal?
8. Por que é que o principal, e quase único, porta-voz das manifestações alegadamente pacíficas é Leopoldo López, pessoa que não representa mais do que o seu minúsculo partido, cujo apelo mais importante é «derrubar os que nos governam»? Que tem a ver com isto o Tea Party, cuja relação é muito estreita com López?
9. Por que é que se protesta se mais do 42% do orçamento do Estado vai para o investimento social? Segundo dados internacionais, quase cinco milhões de pessoas saíram da pobreza; então quem é que protesta? Por que é que se protesta se foi eliminado o analfabetismo? Se se multiplicou por cinco o número de professores das escolas públicas e se criaram onze novas universidades?